Eu Repórter

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Eu Repórter: "Português Brasileiro"

Artigo de colaboração pelo professor João Adalberto Campato Jr.

Por mais inacreditável que pareça, há um professor de Língua Portuguesa que se transformou, de uns tempos a esta parte, em verdadeiro pop star. Desnecessário afirmar que estou me referindo a Pasquale Cipro Neto, a quem se pode assistir, na televisão, ou ler semanalmente, no caso da imprensa escrita, na Folha de S.Paulo, em cujas páginas o mestre indica como se deve dizer as coisas em português correto, castiço e limpinho.

 

Pasquale Cipro Neto é uma espécie de versão mais moderada e menos radical do finado Napoleão Mendes Almeida (este radical até a medula), ex-colunista do Estado de São Paulo, e autor da ultraconhecida Gramática Metódica da Língua Portuguesa (Editora Ática), adotadas em escolas, faculdades e seminários no Brasil e até no exterior.

 

Tanto um quanto o outro são típicos representantes da gramática normativa ou prescritiva, constituída de regras que, não se sabe bem o porquê, devem ser seguidas sob pena de os falantes, os escritores e os alunos levarem grandes broncas dos corretores de redação e professores de língua. No entanto, a gramática como disciplina não constitui algo de análise tão simples.

 

Há outras concepções desse domínio, como, por exemplo, a gramática descritiva. A gramática descritiva é o conjunto de regras que são seguidas; em outros termos, trata-se das regras que, de fato, são usadas por nós e que interessam, mais de perto, aos linguistas, isto é, aos verdadeiros cientistas da linguagem, que encaram a língua com método e padrão, e que, infelizmente ainda, estão distantes dos refletores das TVs. Para resumir, a gramática normativa expõe (muitas vezes sem coerência e desprovida de explicação lógica) as regras que devem ser seguidas; a descritiva, as regras que são seguidas naturalmente.

 

Apenas para ilustrar tal tópico, se alguém desejar tomar contato com uma gramática da modalidade descritiva, é útil um primeiro contato com a Gramática Descritiva do Português, de autoria de Mario Perini, editada pela Ática.

 

O estudo de língua portuguesa nas escolas é cumprido sob as rédeas da gramática normativa, de forma que os alunos aprendem, por exemplo, que o correto é escrever ou falar “Assisti ao jogo do Brasil” e não “Assisti o jogo do Brasil”. Isso porque a gramática normativa caminha de mãos dadas com a norma-padrão da língua, que exige o emprego da preposição A depois do verbo ASSISTIR, quando este significa ver.

 

Por tais e quais motivos, ouvimos as pessoas dizerem “eu não sei mesmo português” ou “nossa língua é difícil, não é?”.  A gênese de frases acima está, amiúde, no fato de que a norma-padrão das gramáticas normativas é a portuguesa de Portugal, o que equivale a declarar que nós estudamos uma língua na qual nós não nos reconhecemos inteiramente e em função da qual nós nos sentimos estranhos muitas vezes.

 

O português brasileiro – desde há muito tempo – já é uma língua diferenciada e com particularidades com relação ao português europeu. Bem, o até aqui exposto tem o motivo de anunciar que um passo decisivo foi dado em direção a algo que ajudará um letramento mais eficiente dos estudantes brasileiros, que promoverá uma reflexão mais acertada da nossa língua portuguesa por parte de todos nós, que suscitará uma maior identificação do brasileiro com sua língua, aumentando, inclusive, a autoestima dos alunos tanto quanto ao seu modo de expressar como de sua cultura em geral. E que, ao fim e ao cabo, diminuirá a sensação de ser a nossa língua tão difícil.

 

O passo decisivo – como havia anunciado antes - é que veio à luz neste janeiro de 2012 a Gramática Pedagógica do Português Brasileiro (Editora Parábola, 1053 páginas), de autoria do tradutor, linguista e professor da Universidade de Brasília (UNB) Marcos Bagno, com quem, por sinal, Pasquale Cipro Neto vive às turras.  Trata-se de uma gramática com a cara do português brasileiro, e que talvez seja mais um passo para retirar de nós o “complexo de vira-latas”, de que falou um dia o dramaturgo Nelson Rodrigues.

 

(por João Adalberto Campato Jr. - professor do Curso de Letras da FAP, de Tupã. É Pós-Doutor em Teoria Literária - UNICAMP - e em Literaturas Africanas - UERJ -).

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