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Blog do Giu

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Plano de resgate de facção muda rotina em Presidente Venceslau

Município, que abriga duas penitenciárias, recebe mais de 200 policiais, drones de vigilância e veículos blindados

PRESIDENTE VENCESLAU - O servidor público Marcos Antonio Pereira, de 39 anos, mora num típico bairro de cidade do interior paulista. Moradores conversam no portão no fim da tarde, crianças jogam bola na rua, há poucos carros e nenhum trânsito. No começo de outubro, policiais com armamento pesado tomaram os arredores.

Um caminhão do Batalhão de Choque — o chamado Guardião, versão paulista do carioca Caveirão, trazido de Israel e que suporta tiros de fuzil — se posicionou na entrada. A casa de Pereira fica a cerca de um quilômetro da Penitenciária 2, em Presidente Venceslau, onde estão presas as lideranças mais perigosas da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).

"Virou o assunto. Ninguém sabia direito o que estava acontecendo", lembra Pereira.

Dias depois, ele tomou conhecimento, pelas redes sociais, da existência de um suposto plano de resgate dos líderes da facção. Na ressaca de uma eleição marcada pelas fake news, relatos fantasiosos começaram a pipocar no WhatsApp. Um dele, escrito nos moldes de informes oficiais e supostamente assinado pelo serviço de inteligência do governo estadual, alertava os moradores sobre a possibilidade de explosões em agências bancárias, postos de combustível e na Santa Casa. O pânico foi generalizado. Sua mulher, professora de catequese, chegou para dar aula e não havia nenhuma criança.

LabVida 81 (blog do giu) - 22/11/18

Com quase 40 mil habitantes, Presidente Venceslau é uma cidadezinha um tanto peculiar. Além de abrigar duas penitenciárias, é vizinha de uma terceira, a de Presidente Bernardes, onde fica a chamada tranca-dura, para onde vão os presos quando estão no "castigo". Aos sábados, Venceslau é invadida por mais de uma dezena de ônibus que chegam com as mulheres dos presos para a visita semanal. Esse turismo carcerário movimenta padarias, mercados, hotéis e transporte. 

Apesar da familiaridade com o tema da segurança pública, a atual invasão das tropas é inédita. De repente, as siglas e nomes das polícias especializadas paulistas - Coe, Gate, Rota, Choque, Cavalaria - entraram para o vocabulário local. Mais de 200 homens fardados chegaram para reforçar a segurança. Por determinação judicial, o aeroporto, que só comporta pequenas aeronaves particulares, foi fechado e teve a pista interditada por carros e motos apreendidos. Canhões de luz varrem o céu à noite, à procura de drones da facção. Sem nenhuma explicação oficial do governo de São Paulo, a população ficou perdida.

A diretora de escola Eliza Andrade do Nascimento, de 66 anos, mora entre as duas penitenciárias da cidade. De repente, sua casa virou rota do Águia, o helicóptero da PM. Um conhecido com acesso à cadeia confidenciou sobre o possível plano de resgate. O deputado federal major Olímpio, natural de Presidente Venceslau, agora eleito ao Senado pelo mesmo PSL de Jair Bolsonaro, divulgou que a soltura envolveria a contratação de forças paramilitares iranianas, nigerianas e ex-combatentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) - o plano, segundo autoridades ouvidas pelo GLOBO, mencionava apenas africanos.

Na dúvida sobre a gravidade da ameaça, uma das quatro filhas de Eliza, que mora na capital, pediu que os pais fossem passar uns dias em sua casa. Antes de dar uma resposta, Eliza desenvolveu um método próprio para se certificar de que estava segura. Passou a observar se havia alguma alteração na rotina de familiares de policiais de alta patente da cidade. Ao notar que os filhos do capitão e do major continuavam frequentando as aulas, concluiu que poderia permanecer em Venceslau.

Clima de apreensão

O clima de apreensão existe, mas os moradores não se deixaram abalar. Ao cair da tarde, a população continua com suas caminhadas habituais numa pista que leva até os arredores das penitenciárias e do aeroporto. Alguns se reúnem para tomar tereré, uma bebida gelada feita de erva-mate, e jovens enchem as calçadas em torno da mais nova modinha do interior: o narguilé, um cachimbo oriental com água, para fumo aromatizado.

A presença de homens armados e mal-encarados é a alteração mais gritante na paisagem. Em um dia andando pela cidade, a reportagem cruzou cinco vezes com o Choque, uma com a Rota, duas com a cavalaria, além de incontáveis encontros com as polícias militar e ambiental. A situação atípica impôs ali uma espécie de pacto de silêncio. Nenhuma autoridade aceita falar publicamente a respeito.

Com os hangares fechados e a pista de pouso e decolagem interditada, o aeroporto não funciona desde o dia 10 de outubro. Um empresário da cidade, com uma aeronave à venda, perdeu uma oportunidade de negócio. O possível comprador foi a Venceslau para testar o avião, mas não pôde tirá-lo dali. O empresário chegou a pedir a liberação na Justiça, mas não conseguiu. Corre na cidade que ele deixou de ganhar quase meio milhão de reais.

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